HISTÓRIA DA NOSSA FAMILIA – CAPITULO V
VIRGILIO EM SÃO PAULO
Foi essa São Paulo que o pai conheceu quando chegou em 1936. Uma cidade rica, com ares europeu, edifícios grandiosos, limpa, pacífica, com um povo elegante e respeitador, com bondes e automóveis. O pai, um caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, naturalmente ficou deslumbrado com o que encontrou. Ele sempre se revoltou com a transformação e degradação que São Paulo sofreu principalmente depois dos anos 60 e 70.
Quando aqui chegou, São Paulo tinha sofrido, há quatro anos, um grande revés político. Foi a derrota da revolução de 32. Com um slogan de luta pelo restabelecimento da constituição, que a ditadura de Vargas tinha rasgado, São Paulo, na verdade, lutou pela retomada do poder perdido em 30, e, também, com um viés separatista. Muitos, da elite política, tiveram que se exilar.
Derrotado politicamente, mas não economicamente. A economia paulista continuou a crescer a passos largos.
A família, com quem o pai veio, foi morar num casarão na Praça Buenos Aires, ao lado da Avenida Angélica. Um bairro nobre feito para abrigar as mansões dos endinheirados da época.
Foi uma fase boa e tranqüila para ele. Trabalhava na casa fazendo serviços diversos.
Nos dias de folga costumava passear pelo centro da cidade. Pegava o bonde aberto que passava pela Avenida Angélica e ia até o centro. Lá passeava, deslumbrado, pela rua Direita, pela Praça da Sé onde via as obras da nova catedral, pela rua são Bento, Praça do Patriarca, Viaduto do Chá, praça Ramos de Azevedo, onde admirava o Teatro Municipal, rua Barão de Itapetininga, Praça da República. Tudo limpo, povo bonito e arrumado, guardas bem vestidos que respeitavam e se davam respeito, como ele sempre dizia. Sempre falava, com saudade, desse tempo, e tinha razão pois as década de 30, 40, e 50 foram a melhor fase da cidade antes de entrar no caos do crescimento vertiginoso e degradante das décadas seguintes.
Nos passeios, sempre ia bem vestido com terno e gravata. Teve a sorte do filho do fazendeiro ter a mesma constituição física dele, e toda a roupa que o rapaz já não usava mais passava para ele. Eram ternos de casimira inglesa, linho York Street, lã escocesa, camisas de linho e seda, gravatas importadas, sapatos de couro inglês. O pai adquiriu o hábito de sempre se vestir bem. Gostava de estar bem barbeado, limpo, bem penteado, perfumado, roupa bem passada, bem arrumado mesmo quando o dinheiro não dava para comprar roupa nova e apesar da profissão de pedreiro, que foi exercer em seguida. No trabalho não tinha jeito, tinha que andar sujo. Mas, terminado a jornada, se lavava, se perfumava, se aprumava.
A profissão de pedreiro era uma das poucas alternativas que se tinha para quem, como ele, era analfabeto e não tinha qualificação profissional. Com 18 anos o pai deixou a família para quem trabalhava. O fazendeiro passava dificuldades financeiras em função da doença da mulher, razão da mudança para São Paulo, tendo, depois, até que vender sua fazenda, e o pai estava com uma idade em que teria de escolher uma profissão. Assim, por mãos amigas, tornou-se pedreiro.
Teve sorte de, logo no começo, ter ido trabalhar com uns mestres de obras húngaros. Como não se tinha bons profissionais nativos, ia-se buscar na Europa mão de obra especializada. E esses húngaros, mestres de obras de primeira qualidade, ensinaram ao pai os segredos da profissão. Dedicação ao trabalho, serviço de primeira qualidade, foram lições que ele aprendeu e sempre conservou, vindo a ser um excelente profissional do ramo. Uma coisa que não se acostumou dos hábitos dos húngaros foi o hábito de tomar cerveja o dia todo. Dizia ele que os húngaros mal acordavam já iam para o barril de cerveja, que mantinham no alojamento, e bebiam direto na torneira do barril.
Trabalhou em várias obras. Uma, que sempre falava e se orgulhava, era de uma construção ao lado dos fundos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde realizou um bonito trabalho no alto do prédio. Ele sempre me falava que queria me mostrar e, eu, como me arrependo, não me animei a ir ver. Trabalhou, também, em São Sebastião do Paraíso, nas obras de uma igreja local.
Fez algumas amizades nos locais de trabalho. Alguns lhe falavam da luta pelos direitos dos trabalhadores, tendo até o levado para assistir algumas reuniões do partido comunista. Mas nunca se engajou, por falta de interesse político e, logo depois, por ter de lutar para o pão nosso de cada dia da família que se formava.
No dia 20 de setembro de 1942, pelas mãos de um amigo, entrou pela primeira vez num campo de futebol, o Pacaembu, para assistir a partida de um time, que se tornou uma de suas paixões: o Palmeiras. Seu amigo, também descendente de italiano, lhe explicou que naquele dia a colônia italiana deveria apoiar aquele time formado dentro da colônia e que fora obrigado a mudar seu nome de Palestra Itália para Palmeiras e seria o primeiro jogo com o novo nome. O Palestra Itália foi fundado em 1914. Segundo alguns, principalmente os corintianos, de uma dissidência, a ala italiana, do Sport Club Corinthians Paulista, e, segundo os palmeirenses, que não admitem em hipótese alguma esta história, do desejo da colônia formar seu próprio time.
A italianada se reunia para jogar bocha no Clube Espéria, então chamado Societa dei Canottieri (Sociedade dos Canoeiros). O futebol, então, começava a se popularizar. Dois times italianos, o Torino e o Pro Vercelli, passaram por São Paulo no ano de 1914, e isso eletrizou a colônia. Quatro bochistas se converteram ao futebol e levaram à frente a idéia de formar um time, que logo batizaram de Palestra Itália, cujas cores, verde, branco e vermelho, eram da bandeira italiana. Curioso, para nós, é que um desses quatro rapazes chamava-se Vicente RAGONETTI, será que tem alguma coisa a haver com nosso nome? O pai adoraria ter sabido dessa coincidência.
Em 1942 o Brasil declara guerra às potências do eixo: Alemanha, Japão e Itália. Algumas providências governamentais foram tomadas com relação às colônias desses países. Uma delas é que os clubes não poderiam mais ter nomes estrangeiros. Assim o clube Germania passou a se chamar Pinheiros, o Espanha, clube da cidade de Santos, passou a se chamar Jabaquara, o São Paulo Railway passou a se chamar Nacional. O Palestra Itália também teria que mudar seu nome. Por sinal mais dois times brasileiros tinha esse nome: um tornou-se Cruzeiro, de Minas, o outro, Coritiba, do Paraná.
Mas os palestrinos, de São Paulo, resistiam à mudança. Foram então, muito pressionados e ameaçados. A pressão maior partia dos dirigentes do São Paulo, time que há cinco anos tinha se formado e, como ainda não tinha uma sede à altura, estavam de olho no Parque Antarctica, sede do Palestra Itália, pois se não trocasse o nome, a sede do clube seria posta a leilão. Como não tinha outro jeito, tiveram que, além de tirar o vermelho de suas cores, mudar o nome para Palmeiras.
E, justamente nesse dia, 20 de setembro de 1942, o Palmeiras estreava seu novo nome, justamente contra o São Paulo, o time que pressionou as autoridades contra aquele time de italianos e, alem disso, dividia com eles a liderança do campeonato e quem ganhasse seria praticamente o campeão, pois só restaria mais uma rodada.
A semana do jogo foi uma guerra de nervos entre as duas equipes e entre as torcidas. Imagina-se o clima entre os palestrinos, revoltados contra a mudança de nome e a cobiça dos sãopaulinos. E foi nesse ambiente de guerra que o pai foi assistir seu primeiro jogo de futebol. Para desfazer qualquer dúvida que o time era brasileiro, o Palmeiras entrou em campo com uma bandeira do Brasil. A torcida e o pai se levantaram aplaudindo e vibrando com essa atitude. O jogo começa nervoso, a torcida apreensiva. Aos 19 minutos primeiro gol do Palmeiras, gol de Cláudio (que anos depois foi jogar no Corinthians), explosão de alegria do pai e da torcida palmeirense. Mas aos 23 o São Paulo empata, com gol de Waldemar de Brito (futuro descobridor do Pelé), a italianada e o pai emudecem. O jogo é emocionante e disputado. O nervosismo é geral, em campo e na arquibancada. 43 minutos explode o grito de gol na torcida palmeirense e o pai e seu amigo se abraçam: gol contra do sãopaulino de nome Virgílio. O intervalo é só alegria para o pai e a tifosi (torcida italiana). O segundo tempo começa mais nervoso ainda por parte dos sãopaulinos. O time do Palmeiras toca a bola e aos 14 minutos a arquibancada e o pai vai a loucura: gol de Echevarrieta. A pressão continua e ao 19 minutos o sãopaulino Virgílio comete pênalti em cima de Og Moreira ( o primeiro negro que jogou no Palmeiras). Inconformado com a marcação o central Virgílio parte para cima do juiz, o agride e é expulso. A galera e o pai vibram. O time do São Paulo não aceita a marcação do pênalti nem a expulsão e saem de campo, abandonando o jogo. O pai e a torcida palmeirense vibram e o grito “È campeão” ecoa por todo o Pacaembú. O São Paulo foi punido, por ter abandonado o campo, com a suspensão para o jogo seguinte, o Palmeiras ganha sua partida da última rodada e é o campeão de 1942. O pai exulta e se torna, para sempre, um torcedor fanático do Palmeiras.
Em 1944 resolve tirar umas férias e aproveita para ir visitar sua irmã Catarina. Pega o trem da Mogiana e vai para Itamogi.
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